Polícia investiga violência obstétrica no Ceará após casos de bebê morto e mães machucadas no parto.

 Polícia investiga violência obstétrica no Ceará após casos de bebê morto e mães machucadas no parto.
Digiqole ad

Pelo menos cinco mulheres que estavam grávidas denunciam que sofreram violência obstétrica no Hospital e Maternidade José Pinto Do Carmo, em Baturité, no interior do Ceará. No caso mais recente, um recém-nascido morreu na sexta-feira (8), 17 dias após o parto na unidade. A polícia investiga o caso como suspeita de lesão corporal dolosa, quando há intenção de praticar o crime.

A mãe da criança, Vanessa Rocha, afirma que foi acompanhada por profissionais de saúde de Pacoti, mas no dia do parto, em 22 de agosto, foi encaminhada ao hospital de Baturité com 40 semanas de gestação.

Segundo Vanessa, o parto evoluiu normalmente, porém ela parou de ter dilatação, e a equipe médica afirmou que o bebê estava com baixa frequência cardíaca. Após isso, o médico realizou a manobra de Kristeller, técnica que pressiona a parte superior do útero para acelerar a saída do bebê. O procedimento já foi banido pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Pedi várias vezes que ele fizesse meu cesáreo, aí ele estourou minha bolsa. A bolsa foi rompida pelo médico, ela não rompeu só. O que eu passei eu não quero que nenhuma outra mãe passe, foi terrível. Uma das manobras que ele fez eu falei ‘doutor o senhor vai matar meu filho’. Isso eu falei por três vezes. Meu filho nasceu muito roxo, colocaram em cima de mim por segundos. […] Uma coisa que eu conseguir ver é que a cor do meu filho voltou, mas o choro tão esperado, tão sonhado, nunca veio”, relatou Vanessa Rocha.

Após o nascimento, o filho de Vanessa apresentou problema respiratório severo e foi transferido para o Hospital São Camilo, em Fortaleza, onde faleceu.

Conforme o laudo emitido pela unidade, a criança um edema cerebral difuso, caracterizado por um inchaço no cérebro causado por um aumento do volume de líquido no tecido, o que provocou a paralisação de outros órgãos do corpo do bebê.

“O que eu passei eu não quero que nenhuma outra mãe passe, foi terrível”, lamentou Vanessa, que já estava com tudo preparado em casa para a chegada do filho.

Vanessa foi a sede da Perícia Forense (Pefoce), em Fortaleza, e realizou um exame de corpo de delito, porque a barriga dela ainda se encontra com marcas roxas e amarelas devido à pressão feita pelo médico durante o parto. A mulher também registrou um Boletim de Ocorrência.

Apuração do caso

A direção administrativa e clínica do Hospital e maternidade José Pinto do Carmo afirmou ao g1, através de nota, que, todos os fatos, são apurados e esclarecidos junto às autoridades competentes para serem avaliadas as condutas dos profissionais envolvidos no caso.

A unidade salienta que no caso específico da paciente Vanessa, o bebê nasceu e foi estabilizado, necessitando ser transferido a centro hospitalar avançado em Fortaleza, em decorrência de complicações durante o seu parto, transferência realizada em 23 de agosto do corrente ano.

Direção clínica e o próprio médico, que conduziu o parto, já prestaram os primeiros esclarecimento junto ao Ministério público, sobre o mencionado atendimento; e, bem como, tomando os procedimentos cabíveis para elucidação dos fatos.

Hospital Polo reforçou que presta serviços a oito municípios do Maciço de Baturité há 74 anos.

Outras denúncias

A partir do relato de Vanessa nas redes sociais, outras mãse alegaram também ter sofrido violência obstétrica na mesma maternidade. Entre elas está a dona de casa Elaine Santos, que disse ter sofrido a manobra de Kristeller no parto dela.

“Começou a pressionar bastante minha barriga com o cotovelo, botando força. Eu sentia muitas dores, eu gritava, implorava por cesárea e ele dizia que eu iria ter o bebê normal. Ele nasceu totalmente roxo, reanimaram o meu filho na minha frente e nisso ele ficou com sequelas neurológicas. Tudo pela negligência que nós sofremos na maternidade.”

— Elaine Santos, mãe que denuncia violência obstétrica

Outra mulher que não quis ser identificada disse que a prima dela morreu semanas após o parto também na maternidade de Baturité.

“A minha prima deu entrada com infecção, passou a noite tomando remédio. No outro dia, foi liberada sem sinal de melhora. O médico se negou a fazer a cesariana alegando que a criança era prematura, que não estava no tempo ainda”.

Ao perceber que a criança já havia morrido, encaminharam para um hospital de Fortaleza. “Assim que perceberam que a criança estava morta, tiraram a criança de imediato. Assim que a criança nasceu, a minha prima foi direto para a UTI, por conta da infecção que se espalhou. Na quarta semana de internação a minha prima veio a falecer” disse a familiar de uma mulher que morreu após atendimento da maternidade de Baturité, disse a parente da vítima.

Investigação

Em nota, a Secretaria da Segurança do Ceará afirmou que a Polícia Civil investiga a suspeita de “lesão corporal dolosa contra uma mulher” que passou por trabalho de parto. Um boletim de ocorrência foi registrado na cidade de Baturité.

O Ministério Público abriu inquérito para acompanhar as investigações sobre a morte de um recém-nascido dias após o parto.”Na investigação, o MPCE irá ouvir todas as partes envolvidas e buscar provas técnicas para saber se houve ou não violência obstétrica na unidade”, disse o órgão, em nota.

A Prefeitura de Baturité disse que não iria se pronunciar sobre o assunto, alegando que a gestão da maternidade não é municipal; o convênio entre prefeitura e a unidade de saúde foi encerrado em 2020.

G1 Ceará